Síndrome de Burnout: quando o trabalho adoece o homem

“O trabalho é o alimento das almas nobres”.“Treine enquanto eles dormem”. “Mente vazia, oficina do diabo”. Você se lembra quando foi que essas frases entraram para o seu repertório? Ou melhor: saberia dizer em que momento começou a acreditar nas sedutoras promessas embutidas nas ideias de competição, produtividade e obstinação? Arrisco dizer que ainda na infância. Basta observar fábulas infantis como A cigarra e a formiga, por exemplo, cuja moral é: curtir o verão cantando por aí é para os fracos! Siga o exemplo da formiga, que nunca descansa.

A cigarra e a formiga: o chamado para produzir começa cedo

Como médico que tem grande apreço pela profissão, concordo que trabalhar é, de fato, uma das melhores coisas da vida. Nascemos, afinal, para realizar, para tirar projetos do papel, para sermos úteis. Ocorre que precisamos tomar cuidado com as expectativas que depositamos na dedicação à carreira. Quem investe nela até a última gota de suas energias, apostando no sucesso profissional como única fonte de prazer e realização, pode acabar surpreendido pelo fracasso. Acredite: não há competência que resista a corpo e mente adoecidos pela Síndrome de Burnout

“Será meu caso, doutor?”

Também conhecido como Síndrome do Esgotamento Profissional, esse fenômeno biológico tem nos workaholics suas vítimas mais frequentes, pois são pessoas marcadas pelo intenso desejo de serem as melhores em tudo o que fazem, não raro porque medem sua autoestima pelo desempenho no trabalho.

Eu definiria o problema como um quadro de estresse bastante agravado, com sintomas físicos que incluem:

  • Dor de cabeça
  • Dores musculares
  • Dores na coluna
  • Problemas digestivos
  • Ansiedade
  • Hipertensão
  • Sensação generalizada de mal-estar
  • Sensação de cansaço crônico (aquele do qual você não se recupera após descansar)

Entre os sintomas psíquicos, temos:

  • Mau humor
  • Irritabilidade
  • Solidão
  • Depressão
  • Isolamento social
  • Hipersensibilidade emocional (choro por qualquer motivo)
  • Ansiedade
  • Medo e dúvidas quanto à sua capacidade
  • Vontade de fugir de tudo

É curioso observar ainda o perfil psicológico desses pacientes. É comum que seu histórico emocional inclua um pai exigente, difícil de agradar, que acaba fazendo com que a criança acredite no amor como algo vinculado a resultados ou que demanda grandes esforços. Trabalhadores submetidos à sobrecarga de atividades, assédio moral, conflitos com a chefia, ou cujos méritos dificilmente são reconhecidos também costumam apresentar a síndrome.

O International Stress Management Association (Isma) – organização internacional de pesquisa, prevenção e tratamento do estresse – estima que 30% da força de trabalho brasileira esteja enfrentando essa condição. Quando não tratado a tempo, o distúrbio pode ser muito prejudicial à carreira, pois provoca queda expressiva de produtividade e dificuldades de relacionamento.

O esgotamento profissional também traz consequências às empresas. A depressão – um dos desdobramentos do transtorno – será a segunda principal causa mundial de afastamento de profissionais até 2020, conforme mostram dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, a Previdência Social registrou, em 2016, o afastamento de mais de 75 mil trabalhadores por conta de quadros depressivos — 38% do total de licenças por distúrbios psíquicos.

O transtorno acarreta, por fim, sérias complicações na vida familiar do estressado, que mal tem tempo para o cônjuge e os filhos, se envolve constantemente em brigas, e não cumpre com suas responsabilidades domésticas.

Sua Vida S/A

A vida é um quebra-cabeças. O trabalho é só uma peça

Girar as engrenagens do mundo moderno é uma aventura tão fascinante, quanto cheia de armadilhas. Uma delas é a ideia – por sinal muito bem explorada por muitos discursos corporativos – de que o trabalhador é o seu trabalho, portanto vale quanto produz. Entre os homens, esse conceito é ainda mais enraizado, pois o ideal de masculinidade tem conexões diretas com o poder, a riqueza e o sucesso.

Somos nós, portanto, o público mais difícil de tratar quando falamos em Síndrome de Burnout. Costumamos exibir o cansaço, as olheiras e noites viradas como troféus, sinais de que somos “imprescindíveis”. A busca por ajuda profissional só costuma ocorrer no limite do esgotamento, quando o desempenho da pessoa já está seriamente comprometido ou porque o esforço sobre-humano aplicado à carreira não trouxe as recompensas esperadas (e é claro que não trariam, pois as expectativas criadas eram irreais).

O principal recurso recomendado aos superestressados é a psicoterapia. Em casos em que distúrbio já evoluiu para a depressão, o médico costuma prescrever antidepressivos. O foco do tratamento é, principalmente, quebrar o círculo vicioso formado por:

sobrecarga ou excesso de trabalho → frustração → mais trabalho para compensar a frustração.

As sessões de análise também convidam o paciente a refletir sobre as questões emocionais que porventura o levem a encarar o trabalho como fuga ou válvula de escape.

O descanso físico e mental, com espaço para cultivo do lazer, atividade física, vida social e familiar é outro ponto abordado no processo de recuperação.

Teste

Para encerrar nosso papo de hoje, deixo aqui uma lista com 12 sinais que podem indicar presença da Síndrome de Burnout. Quem reconhece ao menos 3 sintomas deve ligar o sinal de alerta e procurar um especialista (de preferência, psicólogo ou psiquiatra).

  1. Necessidade de se afirmar ou provar ser sempre capaz;
  2. Dedicação intensificada, com predominância da necessidade de fazer tudo sozinho e a qualquer hora do dia (imediatismo);
  3. Descaso com as necessidades pessoais – atividades como comer, dormir, sair com os amigos começam a perder o sentido;
  4. Recalque de conflitos – o portador percebe que algo não vai bem, mas não enfrenta o problema. É quando ocorrem as manifestações físicas;
  5. Reinterpretação dos valores – isolamento, fuga dos conflitos. O que antes tinha valor sofre desvalorização: lazer, casa, amigos, e a única medida da autoestima é o trabalho;
  6. Negação do outro – nessa fase os outros são completamente desvalorizados, tidos como incapazes ou com desempenho abaixo do seu. Os contatos sociais são repelidos, cinismo e agressão são os sinais mais evidentes;
  7. Recolhimento e aversão a reuniões (antissocialização);
  8. Mudanças evidentes de comportamento (dificuldade de aceitar certas brincadeiras com bom senso e bom humor);
  9. Despersonalização – evitar o diálogo e dar prioridade aos e-mails, mensagens, recados etc.;
  10. Vazio interior e sensação de que tudo é complicado, difícil e desgastante;
  11. Depressão – marcas de indiferença, desesperança, exaustão. A vida perde o sentido;
  12. E, finalmente, a do esgotamento profissional propriamente dito, que corresponde ao colapso físico e mental. Esse estágio é considerado de emergência e a ajuda médica e psicológica uma urgência, com sintomas variados: fortes dores de cabeça, tonturas, tremores, muita falta de ar, oscilações de humor, distúrbios do sono, dificuldade de concentração e problemas digestivos

Até o próximo post!

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  1. edmilson

    Fui diagnosticado com a síndrome, me encaixei no que o texto diz.

  2. Olá, gostei muito das informações de seu site.
    Ótimos quando lemos artigos de qualidade como esse.
    Parabéns

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