Vivendo com o HIV: a história de Fernando*

Sim, ainda precisamos falar sobre o HIV. Sei que esse foi assunto do último post, em que mostrei pesquisas e estatísticas. Sei também que não economizei em alertas e esclarecimentos técnicos e científicos.

Mas a verdade é que tudo isso, embora nos faça enxergar muita coisa, diz bem menos que a voz de quem vive com o vírus.

Por isso trago hoje o depoimento do Fernando*. Ele tem 34 anos e convive com a infecção há 8. Contrariando o mito que atrela a enfermidade à homossexualidade, ele se contaminou durante uma relação heterossexual.

No texto a seguir, ele  compartilha conosco um pouco de sua história, que nos convida a refletir sobre a prevenção do HIV e, também, traz muitas lições sobre preconceito:

“Eu era o que, até então, se chama de ‘homem de classe média padrão’. Tinha uma esposa, uma filha, acabava de me formar na faculdade e finalmente largava de vez o táxi, ofício que exerci tantos anos para pagar os estudos e as contas, para me dedicar à profissão que eu de fato havia escolhido: o jornalismo.

A bomba veio há cerca de 9 anos (um ano antes do meu diagnóstico), quando comecei a me sentir muito estranho. Os sintomas incluíam constante sensação de nariz entupido, feridinhas na parte de cima do pênis, deformações em algumas unhas, descamação das sobrancelhas e da pele do rosto, queda de pelos e cabelos, dificuldade para ler e enjoos frequentes, sobretudo quando ficava nervoso. Um tempo depois, comecei a notar uma espécie de ‘cobreiro’ nas minhas costas e no peito. Decidi então procurar um médico, mas nem passava pela minha cabeça que eu pudesse ser soropositivo. Afinal, eu tinha a (falsa) garantia da heterossexualidade a meu favor.

Passei por pelo menos três médicos até saber o que eu realmente tinha. Até que o terceiro me pediu uma bateria de exames, incluindo o teste elisa, para detecção do temido vírus. Encarei como um procedimento de praxe. Tomei um certo susto quando o laboratório me ligou pedindo que eu repetisse o elisa, mas, até aí, não me desesperei. Me agarrei à esperança do ‘falso positivo’.

O baque mesmo veio quando, depois de realizar o western blot (teste confirmatório), ouvi do doutor:  ‘Preste atenção, Fernando. Você está mesmo infectado pelo HIV. Mas não se preocupe, vai ficar tudo bem. Os tratamentos disponíveis hoje permitem que as pessoas levem uma vida praticamente normal’.

Saí do consultório sem chão. ‘Praticamente, doutor?’. Eu era casado (aliás, ainda sou. Meu relacionamento felizmente resistiu a toda essa turbulência) e não contar à minha mulher sobre isso não era uma opção. Ou seja: além de levar o ‘tiro’ desse diagnóstico, eu ainda teria que abrir o jogo em casa e contar como eu me contaminei. Sim, eu fui infiel e transei  muitas vezes, com muitas mulheres, sem me preocupar em proteger nem a mim, nem ao meu relacionamento. Para ser honesto, nem sei quem foi que me contaminou.

Vi minha família simplesmente desmoronar depois de revelar meu diagnóstico, e chegamos literalmente ao fundo do poço quando descobrimos que eu havia passado o vírus para a minha parceira. Pensei em me matar mais de uma vez. Cheguei inclusive a tentar. Passei um bom tempo tomando coquetel e antidepressivos. Minha esposa também.

Enfrentar toda essa tempestade não foi nada fácil. Hoje, posso dizer que estamos bem.  Apesar de tudo, estar vivo é uma dádiva. Essa é a lição que que o HIV tem me ensinado todos os dias. Agradeço por poder acompanhar o crescimento da minha filha, de ainda ter saúde para trabalhar e correr atrás dos meus objetivos. E isso, sinceramente, me basta. Deveria bastar para todos nós – com ou sem AIDS.”

Não sei quanto a vocês, caros leitores, mas na serenidade de Fernando revisitei quatro certezas:

  1. Saúde é nosso bem mais precioso.
  2. Mas não basta só cuidar da gente mesmo. É preciso que cuidemos uns dos outros.
  3. A doença social do preconceito é grave e exige combate ativo e imediato , e essa é uma responsabilidade de todos nós.
  4. Palavras também salvam, saram e curam.

Até o próximo post!

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  1. Marcelo

    Bom, ele não diz se teve sexo ANAL, pois apesar de que homem pode infectar-se tendo relações com mulheres, no sexo VAGINAL é muito menos frequente, sendo muito maior o risco pelo sexo ANAL. Ele poderia dizer sobre este detalhe para maior esclarecimento. Nos consultórios dos infectologistas quando do aprofundamento da origem de como tal paciente se infectou, surge sempre o sexo anal ou compartilhamento de drogas injetáveis e nunca infecção pelo sexo VAGINAL, o que não quero dizer de maneira alguma que este não tenha riscos. CAMISINHA SEMPRE.

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