A incrível geração de impotentes formada pelo uso recreativo do Viagra

Desculpe o banho de água fria. Ainda mais depois do último post, em que comemorei os 20 anos do Viagra, um medicamento, sem dúvida, pioneiro, que revolucionou o comportamento sexual masculino. Mas é justamente para que você tenha uma vida sexual com mais saúde e qualidade que faço o alerta. Me refiro ao oba-oba vivido por uma parcela crescente dos jovens contemporâneos, que vêm tomando a azulzinha por pura diversão, sem saber que, nessa brincadeira, enfrentam riscos de máxima potência.

Estamos num país que, desde 2011, é vice-líder mundial de vendas de remédios para impotência sexual. Os dados são da IQVIA, instituição focada na auditoria do mercado farmacêutico. Sim, eu sei que isso tem a ver com a quebra da patente do fármaco no ano anterior, que baixou vertiginosamente seu custo. No início desta década, uma caixa de Viagra na dosagem mais baixa custava em torno de R$120 reais. Nos dias atuais, quem vai à farmácia já encontra versões genéricas por menos de R$ 5. Em 2010, o SUS também passou a distribuir gratuitamente a Sildenafila (nome do princípio ativo do estimulante). Claro que todos esses fatores fizeram com que as pílulas se tornassem acessíveis a mais homens com disfunção erétil, sobretudo os de menor poder aquisitivo. Em contrapartida, o que médicos de todas as especialidades têm notado é que jovens adultos e até adolescentes cheios de “bala na agulha” também respondem por uma assustadora fatia desse consumo.

A comprovação estatística ainda não veio. Há quase dez anos, o ProSex – Projeto de Sexualidade do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) anunciou que estava desenvolvendo um estudo sobre o uso de excitantes por homens sem problemas eréteis. Tudo indica que o resultado ainda não saiu (agradeço se alguém encontrar e postar pra mim aqui nos comentários, ok? Estou bem curioso). Acontece, meu amigo, que o recreio da rapaziada, não raro, termina justamente dentro do meu consultório, e o número de finais infelizes vem crescendo de maneira alarmante.

Durante um tempo, o baladeiro que toma a azulzinha pouco antes de partir para uma noite de sexo sente que está “tudo azul” mesmo. O desempenho na cama, de fato, parece ficar melhor, já que as ereções tornam-se mais fáceis e um tanto prolongadas. O preço cobrado pelo “dopping sexual”, no entanto, costuma ser altíssimo. Às vezes, paga-se com a vida. Sobretudo quando a Sildafinila desce junto com outros comprimidinhos típicos de balada, como ecstasy e poppers. Quem toma esse coquetel  de estimulantes arrisca acordar no além sem sequer curtir um orgasmo.

Outra triste consequência do consumo irresponsável de medicamentos para desordens eréteis é a dependência – no caso, mais psicológica do que química. É comum ver pacientes que, de tanto brincar de farmácia , passam a relatar medo de “broxar” sem eles. Ou que não se satisfazem mais com as relações mantidas sem o auxílio artificial.

Fica aí o alerta. Além disso, o desejo de que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) passe a fazer valer o que a tarja vermelha – essa que consta na caixa da Sildafenila – em teoria, determina: venda apenas mediante apresentação da prescrição médica. Na prática, as pílulas são comercializadas livremente e podem ser adquiridas por qualquer pessoa.

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  1. Luiz De Marco

    òtimo alerta. Na verdade, nunca entendi porque, quem està na normalidade biosexual, tomar o viagra sò por tomar.

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